quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A PARTEIRA






Antigamente, nos sítios e nas cidadezinhas dos sertões, a medicina não chegava, dificultando a assistência à maternidade, o que dava espaço ao papel das parteiras. Ao serem chamadas, se deslocavam de suas residências a pé e quando o percurso era mais longo, iam de cavalo ou até mesmo de jumento.

A parteira, figura feminina de grande beleza, sabedoria, coragem e intuição. Sem nenhuma instrução acadêmica conseguia realizar o mais belo ato humano, que era trazer ao mundo a Vida. Seus conhecimentos eram embasados na prática e na acumulação de saberes, passados tradicionalmente de geração para geração. Usava de sua sabedoria inata com dedicação e sem pressa, pois sabia que era prudente observar a natureza e deixá-la agir livremente.

Madrinha “Cota” era a parteira da nossa Comunidade no sítio Jenipapeiro. Mulher enérgica, determinada e de um grande coração. Executava sua tarefa sem remuneração, com muita dignidade e amor. Estava ali cumprindo sua missão de cooperadora da Criação divina. Não sou capaz de catalogar quantas crianças vieram ao mundo, em busca do aprendizado e da evolução, pelas suas generosas mãos. A fé cristã, que alimentava sua alma, fazia com que se conectasse com Deus para pedir proteção. Era humilde, dedicada, e passava para a parturiente, confiança, tranquilidade e coragem.

Tudo acontecia de maneira natural, sem nenhuma intervenção cirúrgica. Fervia a água  na panela de barro, no fogão à lenha, para a higienização dos panos que iam ser utilizados. A tesoura, devidamente esterilizada, iria dentro de poucas horas cortar a ligação do filho com a mãe – o cordão umbilical. A partir daí o novo ser começaria a sua trajetória, enfrentando os desafios que a própria vida oferecia.
A meninada era afastada do ambiente preparado para o nascimento do novo rebento. Os menores acreditavam  na vinda da cegonha, trazendo sua irmãzinha ou irmãozinho, motivo de alegria para o lar. Não compreendíamos o ato da concepção e do nascimento, pois tudo era muito sigiloso naquela época. Sentíamos, mesmo de longe, o cheiro da alfazema, erva que era queimada para harmonizar o ambiente e neutralizar o odor da própria placenta, surgido na hora do ato mais sublime, o nascimento de uma criança. Momento ímpar, que envolvia os valores culturais da mulher, da família e da comunidade.

Reverencio com carinho e gratidão as parteiras dos velhos tempos, mulheres corajosas que lutavam pelo mistério da Vida. E em especial, Madrinha "Cota”, que pelas suas benditas  mãos, eu vim ao mundo. 

Neneca Barbosa
João Pessoa, 23/08/2007




terça-feira, 14 de agosto de 2007

SONHO REALIZADO

 


É com alegria que escrevo sobre este sonho realizado por Iracy, minha querida irmã, amiga e companheira de infância, que soube, com amor, desenvolver tamanha tarefa. Tendo formação universitária em música, quis compartilhar o seu sonho com seus irmãos de caminhada.
 
Em 1995, na cidade de Catolé do Rocha, alto sertão paraibano, nascia um Projeto direcionado para a música, com crianças e adolescentes, que não tiveram a oportunidade de desenvolver os seus talentos, devido à própria conjectura social, econômica e cultural, do nosso país.

Mas, graças à sensibilidade de um ser humano extraordinário, que trouxe consigo o dom da musicalidade, esses jovens puderam educar o potencial musical que existia latente em cada um deles. E esse ser humano é a nossa Irmã Iracy, da ordem franciscana de Dilling, que veio com a missão de educar e despertar consciências para um mundo melhor.

A música para Iracy é a essência puríssima do clima espiritual, provida pelo Criador. E como se espelha no exemplo do "poverello e fratello" de Assis, também acredita que toda a natureza canta, reverenciando o Deus do Amor e da Paz.  Para ela, a música é um raio do Grande Sol.

O Projeto estava aí, pronto para dar o ponta-pé inicial. Começando com a teoria musical e a prática com o estudo da flauta doce. Aos poucos o grupo ia aumentando e despertando em cada um o interesse, o esforço e a vontade sincera de aprender para crescer. E a nossa heroína viu que podia fazer muito mais por esses jovens. Eles que seriam a esperança de um Brasil renovado.

Seguiu adiante! Com a ajuda de outras pessoas que também acreditaram nos jovens talentos, parafraseando Raul Gil, formou uma Orquestra com quase cinquenta componentes. “GENTE QUE ENCANTA” é um orgulho não só para sua Maestrina, que conseguiu com todo carinho fazer a inclusão social, mas para todos os catoleenses.

Iniciou sua trajetória em concertos pelas cidades vizinhas, vindo também a se apresentar, por duas vezes, em João Pessoa, capital do Estado da Paraíba. Em 2005 um pequeno grupo da Orquestra foi para a região sul da Espanha.  Lá visitou várias escolas, num período de quinze dias. Em 2006, o mesmo grupo se apresentou num evento de Artes, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, capital.

A luta continuou e mais um sonho foi realizado. Construiu o “INSTITUTO CULTURAL CASA DO BERADÊRO”, juntamente com Chico Cesar, cantor e filho da terra, Dr. Antônio Benjamim, médico e doador de um prédio inacabado, e tantas outras pessoas que no anonimato deram sua parcela de ajuda. Hoje, Catolé do Rocha está de parabéns. A semente foi plantada e os frutos virão no decorrer dos tempos.

A Humanidade necessita de trabalhos como este em que a cultura se perpetua através da sabedoria, solidariedade, justiça, paz, respeito pelo seu irmão e o amor. São tesouros “[...] que nem a traça e a ferrugem os consomem e onde os ladrões não penetram e nem roubam” (Mateus 6:20), porque estes tesouros são transcendentais.

Parabéns Irmã Iracy, Jovens, Chico César, Dr. Benjamim, população catoleense e em especial a cada um que, com sua colher de pedreiro, construiu esta obra.

Neneca Barbosa
João Pessoa, 15/05/2006

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A DEBULHA DO FEIJÃO





Voltando ao passado, sertão paraibano. Fica ali entre serras, serrotes e caatingas o sítio Jenipapeiro, onde vivi parte da minha infância.

Para o nordestino há praticamente duas estações: o inverno e o verão. Com a chegada das chuvas a paisagem se transforma em um verde especial, como num passe de mágica. O sertanejo que antes sofria com a terra árida, volta a sorri de felicidade por receber de Deus tão grande dádiva.

Naquele rincão vivi dias felizes. No período das chuvas sentia a alegria voltar ao meu viver, mesmo sendo ainda tão criança. Dormia ouvindo o som da chuva caindo no telhado a me embalar com se fosse uma canção de ninar. No dia seguinte ao raiar do sol no horizonte, era despertada pela bela sinfonia da passarada. Ouvia o cantar do bentivi, da rolinha, do concriz...Tinha ainda o canto da casaca de couro. Ah, esta fazia seu ninho numa frondosa cajaraneira, quase centenária e que ainda hoje existe nos fundos da casa. O ninho era um emaranhado de cipós e gravetos para proteger os seus filhotes ao nascerem.

Era tudo tão simples, mas verdadeiro! Uma vida saudável onde o frescor da brisa banhava meu rosto com suavidade. O oxigênio puro era absorvido pelos pulmões e não havia o temor de buscar viver a vida de forma singela.

A terra era preparada para o plantio das sementes do arroz, feijão e milho. Gostava de ir cedinho, juntamente com Iracy, minha irmã inseparável, para uma pequenina roça que ficava pertinho de casa. Lá ajudávamos ao nosso pai e um dos irmãos no plantio das sementes. Eles com a enxada abriam as covas e nós duas íamos colocando os grãos, na esperança de eles nascerem e produzirem frutos para o nosso sustento. Não fazíamos por obrigação, mas como divertimento. Quando estávamos cansadas voltávamos para casa, mas antes saboreávamos de uma deliciosa melancia, aberta ali na hora pelo nosso pai. A gente fazia nossa festa!

Depois da colheita, qual não era a minha alegria quando meu querido pai anunciava que no final da tarde, após a ceia, haveria a debulha do feijão e que naquela noite iriam se reunir adultos e crianças para o evento. Casa cheia! Tudo era feito de maneira manual, pois não existiam máquinas com suas engrenagens que poderiam, em poucas horas, fazer o trabalho daquela gente. A Comunidade era composta por pessoas todas da mesma família, mas com poucos recursos financeiros. Na hora aprazada todos estavam ali, prontos para contribuir com seu trabalho, não lhes faltando a coragem, a solidariedade, o esforço e acima de tudo a alegria.

E o momento esperado chegou! Quase sempre a lua cheia fazia parte daquele cenário. Lamparinas eram acesas para clarear o interior da casa. Lençóis grandes eram estendidos ao chão na sala de estar e neles eram colocadas as vagens do feijão. Sentavam-se todos para iniciar a tarefa planejada. Óbvio que preferíamos ficar perto daqueles que mais gostávamos. Como era animado! Conversas iam e vinham, risos e gargalhadas, frutos das histórias contadas pelos mais velhos. Era um momento também que a moçada aproveitava para namorar.

Às vezes, era tanta gente que não cabia ao redor dos grandes lençóis! Duplas se organizavam e recebiam cuias feitas de cabaças, frutos colhidos da planta chamada  cabaceira, na qual sua folhagem subia geralmente  nas cercas de pau-a-pique. De repente, alguém dizia: “D. Júlia, tem mais uma cuia?” Não era o espaço que faltava, era um namorico que estava nascendo e precisava de um reservado para que a conversa fluísse com mais naturalidade. Como agrado era servido o café feito no fogão à lenha, pela minha saudosa Mãe, para deixar aquela gente desperta do sono que teimava em chegar. Dormir cedo, no sítio, era o costume daqueles habitantes que enfrentavam no dia a dia o cansaço físico, pelo trabalho no campo.

Quando terminava a debulha todos voltavam para suas casas, felizes por terem ajudado ao seu semelhante. Florescia, como a primavera, a solidariedade humana, em  que as pessoas não se preocupavam  com o Ter e sim com o Ser.

A evolução da Ciência é inegável. Temos hoje todos os tipos de máquinas que substituem o trabalho braçal. Ah, como faz falta o aconchego, a sensibilidade e o calor humano!

Com emoção sinto dentro de mim a beleza da minha gente, onde a maioria já não está mais aqui. Por isso, procuro através do autoconhecimento perpetuar os valores adquiridos, que guardo bem vivos em minha memória.

O tempo vai passando e tento utilizá-lo da melhor maneira possível. Que possamos ter uma Vida bem mais saudável, encontrando tempo para sonhar, cantar e amar!

Neneca Barbosa
João Pessoa, 18/05/07