
Encontrando-me com uma amiga e conterrânea, chamada
Augusta, ela lembrou-me um período de nossa juventude. Fiquei emocionada,
quando começou a recitar o primeiro verso de uma poesia de Ronald de Carvalho,
intitulada “Brasil”. Confesso que lembrei só do início. Ao voltar para casa fui
de imediato consultar o Google encontrando-a. Ah, senti uma saudade daquele
tempo!
Estudando em Catolé do Rocha, na época das férias
ia para casa, por residir na cidade de Riacho dos Cavalos. Aos domingos, juntava-me com a turma de estudantes que estudava
em outros lugares, pois lá só tinha até a 4ª série do ensino fundamental. Em
nossas conversas despertou o desejo de fazermos algo que somasse ao
conhecimento que estávamos buscando, foi quando resolvemos fundar um Grêmio Estudantil. As nossas reuniões aconteciam no Grupo Escolar Daniel Carneiro.
Não ficaram registrados na minha memória os
assuntos que discutíamos. Recordo das apresentações teatrais e cantos que
fazíamos em palcos improvisados, com tambores e tábuas, nas noites de sábados e
domingos. A cortina era feita com um lençol e a música de fundo era tocada em uma
radiola portátil. Numa destas noites declamei a poesia “Brasil” com tanto
entusiasmo, colocando a emoção e o sentimento. Além da parte cultural me
divertia muito na companhia dos amigos.
Nesta época a cidade já era emancipada. Sua vida tranquila faz-me relembrar com alegria, os namoros, os banhos de açudes, com seus passeios de canoa, “os assustados” (dança improvisada) na casa de alguém, as brincadeiras nas calçadas etc. Era tão pouco o que ela tinha para nos oferecer, mas nos bastava, pois ainda não havia o deslumbre da vida dita “moderna”.
Como é bom recordar tudo que fez feliz o nosso caminhar. Tantos anos se passaram e aqui estou continuando o meu aprendizado, dando um sentido à minha vida. Como é importante o mergulho para dentro de si mesmo. Lá iremos encontrar os nossos conflitos, ansiedades, mas também os nossos sonhos. Deixemos a porta da nossa alma aberta, para que nossa intuição flua com intensidade e possamos conseguir celebrar a Vida com alegria e amor.
Neneca Barbosa
João
Pessoa, 08/09/2006
Poesia:
Brasil – Ronald de Carvalho
Nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
faíscas
cintilações.
Eu ouço o canto enorme do Brasil.
Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando, vociferando!
Redes que se balançam, sereias que apitam, usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e roncam,
tubos que explodem,
guindastes que giram,
rodas que batem,
trilhos que trepidam,
rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos,
aboiados e mugidos,
repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro-Preto, Bahia,
Congonhas, Sabará,
vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!
Redes que se balançam, sereias que apitam, usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e roncam,
tubos que explodem,
guindastes que giram,
rodas que batem,
trilhos que trepidam,
rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos,
aboiados e mugidos,
repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro-Preto, Bahia,
Congonhas, Sabará,
vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!
Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.
Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar...
a conversa dos fazendeiros nos cafezais,
a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
a conversa dos operários nos fornos de aço,
a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias
a conversa dos coronéis nas varandas das roças...
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
brilhos
faíscas
cintilações
é o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
onde dorme, com a boca escorrendo leite,
moreno, confiante,
o homem de amanhã!
Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar...
a conversa dos fazendeiros nos cafezais,
a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
a conversa dos operários nos fornos de aço,
a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias
a conversa dos coronéis nas varandas das roças...
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
brilhos
faíscas
cintilações
é o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
onde dorme, com a boca escorrendo leite,
moreno, confiante,
o homem de amanhã!
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