sábado, 3 de setembro de 2016

A LINGUAGEM POÉTICA E A IMAGINAÇÃO SIMBÓLICA



O poeta almeja, por meio da linguagem poética, compreender o mundo que o rodeia. É através dos seus versos que se posiciona frente à realidade do ser humano, mostrando sua descoberta pela luta em busca da palavra inspiradora. Cada poema é um filho que nasce da alma, e entregue ao seu leitor, pois a arte poética pode significar uma relação entre o mundo visível e o mundo invisível. Dessa forma, estará saciando o desejo de preservar essa ancestral vontade de ligação com o transcendente.

O poeta em sua linguagem coloca suas vivências, suas memórias e a imagem reveladora da essência intrínseca à condição humana de viver. Usa sua imaginação, origem do ser criativo, pois primeiro imagina-se para depois criar, dando ao ser humano a possibilidade de se revigorar, porque ela é contemplação, força que o impulsiona, como uma alavanca, frente aos desafios da vida. Daí, a imagem passa a ser a fonte de onde tudo brota. O que se torna novo surge da imagem primordial, pois é a fantasia que produz os mais sofisticados produtos da psique.

O poeta vai criando sua obra como algo mediador, pela força e mistério que a imaginação proporciona através das imagens que o seu eu lírico produz. A própria criação da imagem poética propícia um elo com o leitor e aquele que a cria, constituído de um caráter intersubjetivo. Segundo Gaston Bachelard: “[...] todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito”.

O imaginário poético só se torna possível por meio dos símbolos que formam as constelações de imagens, considerando que toda imagem carrega um significado simbólico. Assim o poeta vai tecendo seus poemas com fios de vários matizes, possibilitando a percepção da comunhão de todas as coisas com o Todo. (Fragmentos do meu TCC na Graduação em Ciências das Religiões, pela UFPB).



Neneca Barbosa

João Pessoa, 09/ 03/2016




quarta-feira, 20 de julho de 2016

MEDO DO DESCONHECID


Na jornada é preciso coragem e determinação, para seguir adiante.
Mas, há o temor do desconhecido. Voar mais alto é ir mais além. É dar-se por amor. Reabastecer a nave e seguir em direção ao voo.
O nosso coração, gerador da energia simbólica do amor, deve ser preparado, e, como os pássaros, voar livre sem amarras e sem fronteiras!
"Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo de voar". (Rubem Alves)

Neneca Barbosa

João Pessoa, 19/07/2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

DESERTO INTERIOR




O ser humano vai construindo ao longo do caminho sua identidade, caracterizada em uma estrutura social, histórica, política, ideológica e econômica. Nesta construção ele percorre o seu deserto interior seguindo passo a passo pelas suas areias finas, até ser capaz de compreender o sentido dessa passagem. Para tal, ele necessita aprender a ler o deserto, assim como o beduíno é capaz de fazer sua trajetória, através do conhecimento adquirido pelos astros e suas experiências.

O deserto interior conduz o homem a viver sua interioridade. Enxerga que nada separa o que está em cima e o que está embaixo. Despoja-se para ir mais além, no qual o olho abre-se como janela para o espírito, mesmo compreendendo que há uma distância entre ele e o Todo. É no seu deserto, de natureza árida, que a manifestação reveladora do sagrado acontece e o homem vive sua realidade íntima.

É nessa busca do ser consigo mesmo, que ele tem a capacidade de abrir-se para o Outro. Começa a entender que nas relações entre os seres vivos existe uma interdependência com o meio ambiente, no qual Deus está aí presente.

A passagem pelo deserto, de forma metafórica, faz o ser humano enxergar a si mesmo e compreender a aridez do seu coração, suscetível de transformações, podendo ser, portanto, objeto de sua análise, chegando a descobrir que no deserto da Vida, há sempre a possibilidade de encontrar um oásis em seguida.

Neneca Barbosa
João Pessoa, 22/06/2016

sábado, 5 de março de 2016

SIMPLESMENTE “MULHER”


Agradeço pelo honroso convite para compor a abertura da Ciranda Mensal de Março, com a temática “Simplesmente Mulher”. Escrever sobre a Mulher é algo prazeroso, por me sentir “simplesmente mulher”!

A mulher tornou-se para os escritores, principalmente para os poetas, uma das principais fontes de inspiração. É um ser delicado, mas ao mesmo tempo forte. Usa o equilíbrio entre a razão e o coração.

A mulher tem uma luz interior, capaz de produzir emoção, intuição e principalmente o amor. O que se torna perceptível, palpável, não se iguala com a capacidade que a mulher tem de imaginar.

A mulher pode ser comparada a um jardim, pois em seu coração ela faz uma grande semeadura, na qual desabrocham flores perfumadas, cada uma com sua essência. Rega-as com ternura, carinho, renúncia, paciência e amor.

Doadora da vida cumpre o papel de co-criadora divina, procurando por meio da sua determinação e dedicação, contribuir por uma sociedade mais justa, mais pacífica e livre das amarras que aprisionam ainda o ser humano.

Dessa forma, a mulher seja respeitada e amada, todos os dias de sua existência, e não lembrada, apenas, em algumas datas. Parabéns mulher, que é mãe, esposa, companheira, amiga, trabalhadora, filha e educadora.
Cito uma frase, do inesquecível Carlos Drummond de Andrade, poeta, contista e cronista brasileiro: “É próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite tudo imaginar.”


Neneca Barbosa
João Pessoa/PB

Introdução para a 85ª Ciranda Mensal da CAPPAZ (Confraria Artistas e Poetas pela Paz) - Março 2016 - Simplesmente “Mulher”



O QUE INSPIRA O POETA



Toda criação é fonte de inspiração para o poeta. A Natureza canta a seu favor, quando as flores desabrocham no jardim e as borboletas fazem seu festim. 

O poeta se inspira nos pássaros, que pela noite se agasalham em seus ninhos, para na manhã seguinte saírem em revoada, com seus suaves trinados, feito o som saído das cordas de um violino, nos ensinando que poderemos voar mais longe, mas com cautela, para que possamos alcançar nossos sonhos. 

Inspira-se nas ondas do mar, que vem beijar a areia fina da praia, por onde passam os transeuntes sem rumo em direção ao vento. Ah, se inspira também nas estrelas que brilham no céu nos enviando mensagens de amor. No luar dos enamorados e no sol que nasce radiante e inteiro, todas as manhãs, convidando-nos a ter esperança para um novo renascimento. 

O poeta se inspira nas boas lembranças do passado, deixando-as renascerem das cinzas, acalentando sua alma com o que fez feliz o seu caminhar. 

Inspira-se na simplicidade das coisas, pois sua linguagem poética é uma expressão do encontro do espírito humano com o espírito das coisas, que é o próprio Criador, na qual a vida pulsa incessantemente como um milagre da existência.

Por fim, o poeta é um ser criador, oleiro de sua própria imaginação, que é embasada tanto na sua vivência do cotidiano e na observação da natureza, tal qual aquela que mergulha nas profundezas do próprio ser. Procura mostrar, por meio da poesia, o papel importante que ela desempenha no ser humano, levando-o a uma viagem interior na qual ele procura desvencilhar-se do vazio, da angústia e do desespero da finitude. A poesia é contemplação, transcendência, força que o impulsiona, como uma alavanca, frente aos desafios da vida.

Neneca Barbosa
24/02/2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

VIVER COM HARMONIA




Tem momentos que nos sentimos tristes, mas se pensarmos que a vida é bela e nos proporciona alegria e contentamento, voltaremos a sorrir. Tudo que vivemos vale a pena. Na caminhada encontramos pedras que machucam nossos pés, mas a vida nos ensina a não desistirmos da busca da verdade, da felicidade, do amor, que não se encontram no exterior e sim dentro de nós mesmos. Vamos tentar ter esperança em dias melhores. Sabe por quê? Todas as manhãs o sol nasce nos proporcionando uma nova esperança de vivermos em paz, em harmonia e podermos compartilhar. São coisas que não são vistas a olho nu, e sim, sentidas com o coração. Lembrando o pensamento de Martin Luther King, adaptado para uma música de um grupo musical, na década de 1970 – Os Meninos de Deus.
“É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão que sentar-se, fazendo nada até o final”.

Neneca Barbosa
João Pessoa, 10/02/2016


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MINHAS ANDANÇAS


Em novembro de mil novecentos e cinquenta e seis minha família deixou o sítio, situado no vilarejo de Conceição, que não era o nosso, e voltou para Riacho dos Cavalos, que até então não era emancipado. Meu pai veio assumir o cargo de auxiliar de administração da Fazenda Experimental de bovinos e equinos, de propriedade do Governo Estadual da Paraíba.

 Naquela época, já havia sido antes funcionário público estadual. Sempre que o partido de sua ideologia perdia as eleições era demitido. Quando conseguia ganhar, novamente era readmitido. Nesse ínterim íamos para a comunidade rural do Jenipapeiro, reduto da nossa família, onde temos até hoje uma pequenina propriedade, e que era cuidada pelos dois irmãos mais velhos, os gêmeos. Lá era o nosso porto seguro.

Meu querido pai, um homem extraordinário, de caráter marcante, lutando pela sobrevivência, fez-se um ser humano de bem. Sua dignidade não foi maculada por interesses políticos e manteve sempre a honradez em seus compromissos. Foram lições que se perpetuaram no tempo, como exemplo a seguir pelos filhos. Mesmo com pouco estudo, ofereceu a oportunidade para que todos frequentassem os bancos escolares. Uns pararam completando só o curso primário e outros continuaram, buscando o conhecimento para realizar seus sonhos.

 Voltei a estudar na única unidade escolar da vila, chamada “Grupo Escolar Daniel Carneiro”, nome de um dos filhos da terra. Já vinha alfabetizada e cursei nele o primeiro e o segundo ano primário, hoje fundamental. Ganhei uma professora maravilhosa e fui fazendo novos amigos.

O cotidiano em Riacho dos Cavalos não tinha quase nada a oferecer. Nem sempre era pacata, mas nada que não fosse resolvido, como qualquer outro lugar que se vive em sociedade.

Além das brincadeiras infantis, tinha ainda o açude que fazia parte do complexo do governo do estado. De um porte razoável, servia de lazer para a garotada e os adultos. A pesca era uma das fontes de renda da pequena população e a meninada conseguia arrancar, uma vez por outra, dos pescadores, um passeio de canoa. Época que não havia tanta ganância, pois eles nos atendiam muito bem e sem remunerações. Todos nos conheciam e sabiam os pais de cada um. Compreendo hoje, que bastava tão pouco para fazer uma criança feliz.

 À noite, todos se dirigiam para as calçadas e os vizinhos mais próximos travavam conversas, enquanto a gurizada brincava na rua sob os olhares de todos. A energia elétrica era movida por um motor a óleo diesel, que chamávamos “o motor da luz”. Às vinte e uma horas ele era desligado. Todos ficavam atentos ao primeiro sinal, depois vinha o segundo e finalmente as luzes se apagavam. Neste momento as lamparinas eram nossas companheiras até a hora de todos se agasalharem.

 As lembranças boas chegam! Não preciso colocar aqui no papel coisas tristes que todos vivenciam inclusive as crianças. A vida é feita de dualidade até que possamos compreendê-la e chegarmos ao nível de transcendê-la.

Pois bem, recordo do meu quarto irmão, cujo nome Carlos, que estudava em Patos, a cidade maior do sertão paraibano. Em suas férias, nas noites enluaradas, ao som do violão tocado por um amigo, ele soltava sua voz e todos ficavam horas e horas na calçada escutando as canções poéticas daquela época. Vou citar algumas: “Granada”, “A volta do Boêmio” (Boemia), “Boneca Cobiçada”, “Chuá, Chuá”, “Fascinação” “Perfídia” e tantas outras. Ele possuía dois cadernos de músicas, que infelizmente se perderam no decorrer desses anos. Queria muito tê-los comigo!

Após as eleições de mil novecentos e cinquenta e oito, mais uma vez o partido que José Barbosa de Almeida (meu pai) seguia, perdeu e a história se repetiu. Tivemos que fazer as malas e rumar em busca ao nosso aconchego, o sítio Jenipapeiro. Neste mesmo ano em dezembro completei minhas 10 primaveras. 


Neneca Barbosa
João Pessoa, 20/01/2014