sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O JUMENTO E A CARGA D'ÁGUA








Sertão nordestino, tempo de seca, onde os açudes existentes secavam ou ficavam com pouca água. Isso era motivo que levava os habitantes da minha Comunidade Jenipapeiro,  recorrer aos pequenos riachos, cavando em suas areias cacimbões ou pequenas cacimbas.

Usavam os instrumentos que possuíam como: a pá, a enxada, a alavanca e a picareta. Com muito trabalho as dificuldades iam surgindo, mas a perseverança era uma virtude presente na minha gente. Com paciência iam cavando palmo a palmo até dar nos veios d’água. Muitas vezes, eram acometidos pelo medo de não encontrar o precioso líquido, e qual não era a alegria de todos quando viam jorrar da areia o jato d'água. Cercavam o local com uma proteção de madeira para evitar a erosão ao seu redor.

Garantida a água, utilizava-se como transporte da cacimba até a casa, o jumento. Animal famoso pela sua grande resistência. Para tal, era colocada em seu dorso uma cangalha com cabeçotes e neles eram atrelados as ancoretas, ou barris, como chamavam no sítio. Assim, o jumento se transformava no veículo-tanque daqueles sertões.

E não poderia deixar de contar a minha aventura juntamente com a mana Iracy, onde várias vezes fomos buscar água na cacimba, mesmo sendo as menores da prole. Saíamos alegres, cantando, conversando, mas qual não era a nossa angústia quando acontecia do jumento deitar com a carga d’água ou empacar sem querer andar.  Nesta hora não sabíamos o que fazer a não ser chorar. Nossa esperança era aguardar a passagem de alguém, maior do que nós, para ajudar a levantar o nosso jumentinho tão útil, mas tão teimoso!

Com o desenvolvimento da tecnologia o jumento, que no passado foi um preciosismo meio de transporte e de carga, hoje está quase sem validade, a não ser nos sítios com poucos recursos econômicos. A eletrificação rural facilitou a vida do homem do campo, que  consegue bombear a água para as caixas d’água, tanto dos açudes que ficam perto das casas, como das cisternas que servem para acumular a água das chuvas, diminuindo, dessa forma, as dificuldades enfrentadas pela comunidade.

Ah, as boas recordações! Para que servem? Elas servem como alimento para o meu espírito e que são bem guardadas em minha memória, como verdadeiras relíquias. O passado ficou para trás, mas as lembranças são carícias ao meu coração e me ajudam a continuar escrevendo a minha história. Os pequenos símbolos da infância, por exemplo, são lembranças que o tempo não apaga!

Neneca Barbosa
João Pessoa, 23/08/07

Um comentário:

LENINHA disse...

Vim te trazer meu abraço grande...da amiga que te admira muito
linda e sensível amiga.
Meu carinho eterno...
Obrigada por tuas palavras iluminadas.
Vc tem a sabedoria de grandes seres...aprecio muito o que escreves...
Leninha.