domingo, 5 de agosto de 2007

VIDA EM FAMÍLIA





A Casa onde morava a família era grande, mas sem a arquitetura das construções de hoje; salas amplas, bons quartos, cozinha grande e fogão à lenha. Tudo muito rústico.

Lá reinava a rainha do lar, minha mãe, um pouco introvertida e ao mesmo tempo alegre, cuidava de tudo com muito esmero. À proporção que as irmãs mais velhas iam ficando mocinhas ajudavam com os afazeres domésticos.

Cozinhava muito bem doces de diversas qualidades, sempre de acordo com as frutas da época. No final do inverno, depois da colheita, tinha a comida de milho que confeccionava os seus derivados com suas mãos de fada. A família se deleitava com a deliciosa canjica, a pamonha e o bolo de milho.

Gostava de cantar enquanto fazia a lida e posso dizer que herdei dela este hábito prazeroso.

Ah, a memória! Como ela registra essas lembranças que se perpetuam por toda nossa existência. Lembro ainda de algumas músicas de sua preferência: "Quero chorar não tenho lágrimas", "Meus oito anos" e "Meu sublime torrão". Tinha também as preferidas do meu Pai: "Sertaneja", "Cerejeira em flor", "Cigana", "Cai à tarde" e "Saudade de Matão". O rádio ABC era o nosso único veículo de comunicação.
 E continuava no mesmo ritmo a minha meninice, desfrutando o melhor que tinha para ser vivido naquela época, de maneira livre, tendo a natureza como cenário.

Achava fantástica a chegada dos ciganos no sítio. Vibrava de alegria quando eles pediam, ao meu pai, pousada por dois ou três dias e ás vezes ficavam até por uma semana. Com sua generosidade o meu ídolo permitia que armassem suas tendas no pátio da nossa casa. Tinha confiança nos líderes e fazia negócios entre animais de montaria. Passava boa parte do dia brincando com as crianças e ouvindo as histórias daquela gente nômade que me encantava. Talvez, seja por isso, que sempre digo que em alguma das  minhas vidas vividas fui cigana.

Qualquer acontecimento era motivo de festa para mim. Os batizados e os casamentos, por exemplo. Meus pais eram sempre convidados para serem padrinhos de tão sérios compromissos na vida do ser humano (pelo menos naquela época), pois ganharam a simpatia e a consideração de todos da redondeza. Meu pai, figura querida e respeitada pelo sim, sim e pelo não, não, jamais vi falhar com os compromissos assumidos. E hoje, conscientemente assino embaixo.

Os casamentos eram sempre realizados pela manhã na igrejinha da vila. A família inteira era convidada. Ao término da cerimônia todos se dirigiam à casa da noiva para saborear um delicioso almoço com galinha de capoeira, arroz de graxa ou de festa, como era chamado, e tantas outras iguarias próprias do sertão paraibano.
Enquanto todos já tinham se deliciado com a comida, um trio de tocadores com a sanfona, o zabumba e o triângulo iam se preparando para iniciar o baile. Era costume da época, principalmente na zona rural, os bailes começarem à tarde, lá pelas quinze horas. Algumas pessoas faziam no pátio da casa um piso de cimento, outras devido aos parcos recursos, faziam em chão de barro batido. Quem é sertanejo entende esta linguagem. Foi assim que comecei a aprender a dançar. Tinha na época sete anos e meu par era minha irmã Iracy, que citei no primeiro texto. Ficávamos na parte externa do dance para não atrapalhar os demais. Até hoje gosto de dançar.

Outro momento de diversão era a festa da padroeira da vila e que lembro ainda do nome: Nossa Senhora da Conceição. Dividia-se em dois momentos, um sagrado e outro profano. Terminadas as cerimônias do primeiro, dava-se início a festa profana com quermesses, comidas típicas da região, bebidas, música e leilões de objetos e animais. Era tudo muito divertido principalmente para a garotada.

Algo de engraçado me aconteceu e que me faz rir ainda quando me lembro do nefasto episódio. Tinha muito medo de pessoas quando morriam, não olhava, corria léguas. Numa manhã de sol, minha mãe mandou que eu fosse com minha irmã comprar café e açúcar na venda do vilarejo. E lá fomos nós pulando e cantando, felizes da vida.

Ao voltar para casa, avistei de longe um enterro que vinha na estrada principal. Com que cena me deparei naquele instante! Ao olhar para o horizonte, vejo uma rede balançando para lá e para cá e sabia que ali tinha uma pessoa morta. Para não passar por ela fui por dentro de uma roça e quando cheguei em casa estava com a barra do vestido toda cheia de carrapichos. Contei o ocorrido e minha mãe com toda paciência foi tirando um por um. Como sabia a filha que tinha, imaginou o pavor que senti diante de tamanho quadro.

Vou ficando por aqui, mas esperem que trarei outros.

Neneca Barbosa
João Pessoa, 18/01/2006.

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